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22 de outubro de 2015

Detalhes da vida

Minha vizinha, dona Estela, é uma pessoa incrível. Sua história é interessante e maravilhosa. Um dia desses sentei em frente a sua casa. No chão, ao lado da cadeira que ela se senta todos os fins de tarde para ouvir o Bee Gees, tricotar – oficio aprendido ainda na infância com sua avó – e pensar um pouco na vida, quis matar toda minha curiosidade.

Dona Estela tem 74 anos que, segundo ela, foram “muito bem vividos”. Hoje ela mora sozinha num casarão de cinco quartos, com a cozinha dos sonhos da minha mãe e uma sala de visitas invejável pelas senhoras aqui do bairro. Ela não é velha. É daqueles tipos de senhoras que não envelhecem, mas trazem a jovialidade estampada no sorriso e serenidade. Vez em quando – quando passo de bicicleta em frente sua casa – percebo uma lágrima que escorre solenemente de seu olho direito. Pelo menos que me lembre, até hoje, todas as vezes que a vi, não percebi a lágrima percorrer todo seu rosto: na metade do caminho ela desaparece no lenço rosa, que dona Estela rapidamente puxa de seu colo e dá lugar a alguns sorrisos carregados de lembrança de um passado aparentemente não distante, e a um jeito de ternura.

Foi por isso que ali estava sentado: queria descobrir de onde vinham aquelas singelas lágrimas e o que impulsionavam seus finais sorridentes de amor. Até então, a única coisa que eu sábia era que ela era viúva e que tinha, ou teve – não sei ao certo, um filho.

– Oi Julho, tudo bem, meu filho? – ela me cumprimentou logo após eu sentar ao seu lado.

– Tudo bom, dona Estela, boa tarde! – mal a cumprimentei, emendei afoito a pergunta que tanto me agitava – Dona Estela, por que a senhora sempre chora e depois ri com tanta afetividade durante as tardes em que está aqui sentada? – um sorriso e uma tremida gargalhada baixa, sem muita força, foram às primeiras respostas dela.

– Ah, Julho! – prosseguiu ela. Não sei se mais exclamando que suspirando, ou vice-versa. Parecia recordar algum momento bom imediatamente ao ouvir minha pergunta. – Fico lembrando algumas coisas que vivi e choro, rio, e choro e rio novamente. Apenas isso, filho. – ela respondeu parecendo ouvir os meus pensamentos sobre as possíveis coisas que passavam em sua cabeça ao ouvir o que eu indagava.

– Qual é sua idade, Julho?

– Tenho 17, completados no mês passado. – respondi parecendo gente grande.

– E que curiosidade é essa de um garoto tão jovem sobre as lágrimas dessa velha senhora? – ela perguntou fazendo graça com a voz. Sorrindo.

– Nada demais, dona Estela. É que sempre quando passo a tarde pela frente da casa da senhora a vejo chorando e logo depois sorrindo, como se lembrasse de alguma coisa muito importante.

– Realmente, Julho. Lembro de uma coisa muito importante! – falou em um tom um pouco mais terno, com os olhos um pouco mais brilhantes.

– Mas que coisa importante é essa, dona Estela? – perguntei curioso e um tanto mais intrigado. Ela, parecendo querer me deixar ainda mais curioso ainda, foi simples na resposta:

– O amor…!

Fiquei paralisado por alguns instantes, pensativo no momento seguinte e enraivecido no posterior, porém me controlei. A paralisia foi pela estonteante, rápida e rasteira resposta; o pensativo pelo que ela poderia significar; e o enraivecido pelo fato de que realmente dona Estela estava querendo despertar cada vez mais a minha curiosidade. Afinal, o que aquelas lágrimas significavam? Por que depois delas os sorrisos eram o que ornavam o ambiente? E essa palavra “amor”, que parece tudo explicar, sintetiza a história de dona Estela sem me revelar seus meandros.

Respirei fundo e demonstrando ainda mais interesse pela história, pedi pra que dona Estela me contasse o que havia acontecido. Foi quando no rádio que estava na mesinha ao lado esquerdo de dona Estela começou a toca “How Deep Is Your Love”, dos Bee Gees, que ela, após se voltar para o rádio com um olhar de paisagem, virou-se pra mim e disse:

– Ouve essa música, filho? – balancei a cabeça positivamente – foi com ela que tudo começou!

– Como assim, dona Estela? – perguntei e ela enfim começou a contar.

– Eu era jovem e estava em uma matinê, lá no bairro que morava. Era nesses eventos, sempre cheios de muitos jovens, que as pessoas da minha época se divertiam. Íamos todos muito bem arrumados: os homens usavam umas calças lisas, boca de sino; as mulheres pareciam disputar em um concurso de beleza pra descobrir que estava com o vestido mais bonito. Os meninos sempre com o cabelo brilhante, outros, tendo-os um pouco mais longo, sempre estavam bem penteados; as meninas sempre inovavam no penteado: cachos, lisos, brilhantes e armados. Foi nesse dia que eu conheci o Cláudio. – dona Estela falava com calma, com paixão e simplicidade – Julho, você é novo, mas um dia, talvez, irá olhar para uma mulher e ela vai te fazer estremecer por dentro, será um terremoto sem escalas para medição da intensidade! Você saberá nesse momento que nunca mais poderá viver sem aquela pessoa.

– Foi isso que aconteceu com a senhora?

– Não, filho, foi o que aconteceu com o Cláudio. – disse entre risos – Foi isso que ele me disse depois de quase duas horas me paquerando de longe. Ele estava no meio de amigos, mas parecia que não tirava o olho de mim. Achava que eu não estava percebendo, mas eu estava atenta. Depois que criou coragem ele veio até mim e disse que um terremoto tinha passado pela sua vida e que uma revelação tinha recebido. Disse que nunca mais iria poder viver sem mim.

– E o que a senhora disse? – perguntei ainda mais curioso com essa história. Estava intrigado como dono Estela podia ser ao mesmo tempo tão transparente e misteriosa.

– Nada. – respondeu ela e eu fiquei de boca aberta meio assustado.

– Como assim nada? O Cláudio se declarou pra senhora e a senhora não disse nada???

– Brincadeira, Julho. Eu há muito tempo estava apaixonada pelo Cláudio. Ele era bonito, inteligente, e todas as meninas da minha idade suspiravam por ele, e comigo não era diferente. Quando ele veio até mim e começou a dizer aquelas coisas, parecia que ele descrevia exatamente o que eu estava sentido ao ouvir cada palavra ser pronunciada por sua voz. Foi apaixonante. Verdade seja dita, fiz um pouco de charme, mas o charme dele era maior. Como resistir a um homem doce, simples e romântico? Impossível.

– Vocês começaram a namorar nesse dia?

– Não, Julho, mas não demorou muito. Saímos algumas vezes e logo ele foi até minha casa me pedir em namoro. Foi um dia marcante. Ele bateu em minha porta e quando eu abri estava ele sentado no chão, com um violão na mão e cantando essa música pra mim. Eu me abaixei, fiquei rente aos seus olhos ele continuou cantando. – Dona Estela contava como se estivesse revivendo naquele instante tudo o que pronunciava – Ele me pediu em namoro logo que terminou de cantar. Eu aceitei com lágrimas nos olhos. Foi à declaração de amor mais linda que recebi. Essa música, “How Deep Is Your Love”, ficou gravada na nossa história, foi trilha de muitos dos nossos momentos juntos.

– Que lindo, dona Estela! Seu marido era mesmo um homem muito romântico. Mas o que foi que aconteceu com ele?

– Mataram meu marido com dois tiros, Julho. – ela falou com uma calma e simplicidade que me chocaram pelo fato da morte do Cláudio ser tão bruta – Ele havia ido à padaria comprar pão e um bolo de aipim que ele sabia que eu adorava. Era uma sexta-feira, foi no final da tarde, mais ou menos nesse horário em que eu sempre sento aqui. Naquele dia um homem entrou armado na padaria e anunciou um assalto. O meu Claudio já estava saindo dessa padaria quando se chocou ombro a ombro com o assaltante. Com a educação que lhe era de costume, meu marido levantou os olhos e pediu desculpas ao homem que, enfurecido, revelou a arma e a disparou contra o meu amor, levando-o para sempre.

– Nossa, dona Estela, que triste. Agora entendo suas lágrimas. Mas, sem querer ser tão chato, mais do que já estou sendo, depois de uma tragédia dessa, como a senhora consegue ter tanta força para sorrir? Conheço pessoas que se desesperam, que dão de frente com a depressão e definham, mas não parece ser assim que a senhora está.

– Filho, acho que você não entendeu uma coisa: não choro pela morte do meu marido, isso eu fiz a algum tempo atrás, no momento em que a dor brutal da partida do Cláudio me dilacerava por dentro. Hoje derramo lágrimas de felicidade pela oportunidade de ter conhecido aquele homem, de ter podido dividir com ele os melhores anos da minha vida. Lembro com alegria quando juntos lavávamos as louças após o almoço e ele sempre brincalhão colocava uma espuma de sabão em meu nariz e me chamava de linda; lembro-me das nossas discussões: elas sempre terminavam com palavras de perdão, com toques de amor.

– Legal, dona Estela!

– Julho, se você tivesse apenas hoje para fazer a pessoa que você ama feliz, você faria? – Dona Estela me perguntou com um “ar” um pouco mais sério.

– Com certeza sim; lógico, se eu tivesse uma namorada.

– Julho, eu e o Cláudio descobrimos logo no inicio de toda a nossa vida juntos que não tínhamos o amanhã, muito menos o “daqui uma hora”. Então vivíamos cada momento como se fosse o único e o último. Tentávamos ao máximo fazer um ao outro feliz, mesmo com os nossos defeitos, que reconhecíamos. Sabíamos rir de nós mesmos, das nossas brincadeiras, das piadas sem graça; dávamos valor a cada declaração, principalmente as ditas em silêncio. Sinto falta do meu Cláudio perto de mim, mas, principalmente, sinto-me muito mais agradecida por tê-lo conhecido e vivido cada instante ao seu lado. A eternidade talvez seja isso, Julho, o breve instante que vivemos amando e sendo amados. Aproveitamos cada detalhe: eles nos dão a possibilidade de aprender, sorrir e chorar, afinal, Julho, em menos de um segundo tudo pode mudar, tudo mesmo. Nossa vida é muito oscilante entre tristezas e alegrias e aprender conviver com essas alterações faz-nos muito mais felizes e, também, muito mais aprendizes na escola da vida.